Oi! Então, você está aí, talvez cansada(o), mas curiosa(o) para saber o que eu tenho para te dizer. Bem, desculpe-me se decepciono, pois, em vista de tantas obviedades e reiterações discursivas, decidi trocar uma ideia contigo sobre uma angústia que tem me afligido, conversa tipo nível divã e confusa pra caramba.
Estou neste momento sentada no sofá da minha casa assistindo à “La Casa de Papel” pela primeira vez, sendo que já foi assistindo por mais da metade da população brasileira. Bom, estou gostando, por gentileza, não me conte o final, não tenho pressa, sigo assistindo devagar.
Tá, não precisava falar do sofá e tal, mas, como já havia dito, a conversa vai ser nível divã, isso requer criar laços de intimidade entre a gente. Bom, sinta-se à vontade, sente-se ao meu lado no sofá, cuidado com meus gatos que estão a minha direita, tire meu caderno velho de cima do assento do lado esquerdo e sente-se. Por favor, paciência comigo, estou carente, alegre, triste, esperançosa, medrosa, tudo junto. Vá, seja minha (meu) confidente, juro, só hoje. Preciso de você, sei que és bondosa(o). É, pronto, já sei que você já reservou um tempinho para me escutar e um lugarzinho no seu coração para mim. Sabia que eu poderia confiar em você.
Que comece a sessão de análise! Bora lá!
Você acredita, que enquanto assisto a série, eu sonho acordada em ver uma escrita minha em vida intensa nas telonas dos cinemas e, logo, descrevo toda sorte de ideias que me parecem significativas para compartilhar com os poucos leitores que ainda existem e com quem queira ler o que escrevo.
Sério, tem horas, e bota horas nisso, que eu duvido da minha sanidade mental. Oh, deve ser positivo meu questionamento sobre minha saúde mental, sinal de que, se me interrogo,ainda não perdi a noção da realidade externa, ela se faz consciente ainda em mim. Sei não…
Bem, aqui estou escrevendo textos voltados a minha participação em um concurso literário com 1% de chance de ser agraciada com um prêmio e com a grande chance de ser completamente ridicularizada. Qual o limite entre o sonho e a loucura? Acredito que haja conceitos científicos sobre isso, pensarei se devo procurar por eles.
Certo é a maneira como me percebo. Acho que estou bem louca. Quanto mais envelheço mais e mais frouxos se tornam meus freios sociais e mais me distancio do externo e parto em disparada em busca da realização dos meus sonhos.
Venho ficando mais bicho. Aliás tenho ficado mais íntima dos bichos do que de gente. Tenho agido muito mais por instinto do que pela razão. Posso, não posso? Ah, afinal de contas a animalidade faz parte da condição humana, segundo entendimento científico. Viu, não me distanciei totalmente do uso da razão.
Mas qual é a distância entre o sonho e a loucura?
Vejamos, cabe a tentativa de entendimento, entretanto me valendo do meu raciocínio pessoal, faço questão de encarar o desafio.
O sonho é uma ideia concreta, mas que se faz presente num mundo particular. Só tem acesso a esse lugar aquele que se permite alcançá-lo em busca de autoconhecimento e, em específico, de informações sobre seus desejos e sobre suas potencialidades. Não deixa de ser uma visita perigosa, pois dentro do mundo interno, acabamos inevitavelmente realizando um duro comparativo entre o que somos e o que gostaríamos de ser, entre o que temos e o que objetivamos ter: a realidade clara do vivente se mostrando em contraste com a do sonho. Pode ser uma experiência traumática.
Se a realidade externa se mostrar muito chocante, o indivíduo pode preferir permanecer dentro do mundo particular onde os sonhos são vividos. Daí, decidido a refugiar-se no mundo interno, ele passa a ser considerado louco aos olhos da realidade externa.
Loucura, então, é recursar-se a viver no mundo externo para desfrutar de uma vivência ideal que se faz presente nas mentes de todos os seres humanos, restringida pelos freios sociais. Loucura é a concretude dos sonhos em sua plenitude. Pensando por este viés, cara, não é tão ruim ser louco. Ufa, sabe que me sinto um pouco mais aliviada.
Qual é a distância entre o sonho e a loucura?
A distância entre o sonho e a loucura é muito curta, né? Nessa linha de pensamento, a loucura existe, porque os sonhos existem.
Os sonhos são como seres que desejam transpor o mundo particular de cada um de nós, portanto muito cuidado ao acessar o seu mundo interior. No entanto, você consegue deixar de acessá-lo? Eu não. Percebo que sonhos são a base para a loucura, contudo, também, em pequenas doses, a força que nos faz ter vontade de viver no mundo externo que é ácido de tanto ser maltratado pelo próprio homem.
Da necessidade de acessar o mundo dos sonhos, sem correr o risco de enlouquecer, parte minha preocupação em entender o que é o sonho e o que é a loucura e sobre a distância entre eles. Tenho sonhado demais e cada vez mais, o mundo externo tem me parecido muito desinteressante, tenho me sentido uma estranha no ninho nesta realidade. Daí, meu medo de estar bem louca ou a um passo da loucura.
Desculpe-me pela minha falta de vontade de discutir assuntos tidos de alta relevância na sociedade, estou estafada de ouvir discussões sobre os mesmos assuntos sem uma postura de resolução efetiva dos fatos retratados. Preferi olhar para mim e, consequentemente, para o mesmo conflito interno que aflige aqueles que se sentem um peixe fora d’água dentro desta realidade social externa e que sonham demais.
Hum, será que existe uma Associação dos que Sonham Demais (ASD)? Se não há um grupo que verse sobre essa questão, está mais do que na hora de ser instituído. Claro que sonhar não é uma problemática, muito pelo contrário, pois a grande mola propulsora das mudanças nas sociedades é o sonho. O problema é o indivíduo perder a noção da vida externa por ter mergulhado até a zona abissal do seu mundo particular, deixando uma parte da vida em detrimento da outra, quando poderia conviver tanto no ambiente externo quanto no interno do seu viver.
Texto confuso que é uma barbaridade. Eu avisei, acho que ando bem louca. Juro que tento ser mais pé no chão, mas as vozes que partem do meu mundo interior incessantemente me falam para não me desfazer dos meus sonhos. Dizem “vai, não desista, põe a cara a tapa, escreva, mostra, luta, luta, luta, não para”.
Portanto, aqui estou eu psicografando o que diz a minha alma, num tom aflito-atormentado por uma série de inseguranças em que ela se encontra, mas na certeza de que a desistência nunca será uma opção. Então, continuo escrevendo a fim de alcançar um sonho que sinto muito mais do que consigo mensurar matematicamente, porque o brilho do meu sonho é da grandeza do Sol, lindo, entretanto impossível vê-lo em detalhes devido a intensidade da luz. Meu sonho é assim: ver uma escrita minha nas telas é o mesmo que eu dar à luz o Sol. Pá! Nas telas, o meu Sol. Pode uma ideia louca dessas?
Eu sonho demais, tenho um olhar esquisito sobre várias coisas, tenho traços divergentes de personalidade. Eu sou estranha, confesso. E acredito que já tenho acesso ilimitado ao mundo do meu subconsciente e temo me mudar para lá de vez.


