Eu sou um óculos, sim, um óculos com hastes de plástico, mas muito resistentes, tenho 101 anos de uso. Em vista da minha longevidade, apresento-me a ti como uma representatividade de todos os outros óculos que por aí estão.
Já parou para pensar no quão interessante é a presença dos óculos na sociedade? Acredito que não. Nascemos objetos, mas passamos a ser constituintes, quase um órgão indispensável de um corpo humano.
Eu fui humanizado, assim como tantos outros da minha categoria. Provo, contando o que vi, vivi e guardo em forma de energia gravada nas minhas lentes amareladas pelo tempo.
Dona Catarina foi quem me adquiriu numa feira de bairro e, portanto, foi justamente ela que me inseriu na família Silva. Dos olhos de Catarina, passei, como forma de estimada herança, para os olhos de pelo menos umas 10 pessoas da família, fora, ao menos, umas 20 crianças entre as da família e da vizinhança que me utilizaram esporadicamente em suas brincadeiras.
Vi e vejo muita coisa pelo olhar daqueles que, com carinho, não me dispensaram numa gaveta qualquer ou no lixo como muitas pessoas o fazem. Não, a família Silva me ama e sei que não pretende me descartar tão logo.
Vi, com certeza, a forma mais pura de amor a partir dos olhos de Catarina quando contemplaram Maria, a sua filha recém nascida, ainda na maternidade. A luz que emanava dos olhos daquela mãe é algo indescritível. Aquela luz, refletida em mim, quase me rachou, morreria naquele olhar, sem dúvidas, mas morreria feliz.
Mais tarde, descobri que a vibração provocada pelo auge da felicidade não era o único risco a minha existência. A suavidade do olhar de Catarina no seu leito de morte deixou-me frágil, prestes a me desfazer a qualquer impacto.
Passei, então, a ver pelo olhar de Maria. Belíssimas paisagens tive o prazer de avistar, porém nenhuma cena da natureza foi mais linda do que a imagem dos cinco filhos da jovem mãe brincando de pega-pega no pátio com o cachorro. Maria, encostada na porta dos fundos de casa, os observava e eu também.
Como viste, nem tudo foram flores, também assisti a outros acontecimentos muito desagradáveis, além da morte de dona Catarina, como o término conflituoso da relação de Maria com seu esposo, conflitos sociais gravíssimos, pessoas procurando ou fingindo não ver determinadas situações a fim de não se entristecerem ou se incomodarem, mães fitando a passagem de horas em relógios preocupadas com o tardar dos filhos.
Maria comprou outro óculos, foi realmente necessário, logo fui passado de herança a um de seus filhos, continuei, então, a minha jornada de conhecimento do mundo pelo olhar de Pedro.
Observei, banhado pelo suor do guri, por longas horas a prova do ENEM, vi de perto toda a tensão provocada por aquele momento.
Terrível foi ver a percepção de Pedro dentro de um carro no instante do capotamento do veículo em via pública. Fui separado bruscamente dele no momento do acidente, fui apartado do garoto também no período em que esteve em coma, entretanto o embaçamento, provocado pela gravidade daquele momento, permanece até hoje nas minhas lentes fatigadas pelos acontecimentos da vida dos que me utilizaram.
Pedro se recuperou, tudo ficou bem. Dos olhos de Pedro passei para os olhos de dois de seus quatro filhos, deles passei para os olhos de um de seus dois netos e, assim, pelos olhos dos descendentes da família Silva fui passando, fui fazendo parte do corpo de alguns, vivendo junto deles as suas experiências de vida, carregando-me, sem resistência, das mais variadas energias.
Ainda, não me descartaram, acredita? É, permaneço em uso pela mesma família. Não desejo ser aposentado ou extinto, gostaria muito de permanecer em uso por ela ou ser fornecido à venda ou à doação para pessoas de outras famílias.
Peço que preste atenção aos óculos expostos nas bancas de diversos lugares por aí. Eu poderei estar entre meus companheiros, se você avistar um óculos de lentes amareladas pelo tempo e de hastes de plástico de cor verde, ah… de certo serei eu. No entanto, digo que todos os outros óculos são objetos especiais, porque em cada lente está incrustada a energia de uma história de vida.


